Políticas para as drogas

21 setembro 2011 | Notícias | Território: Pavão-Pavãozinho / Cantagalo

Policiais de mais de 15 países visitaram favelas pacificadas

A política de drogas em territórios antes dominados pelo narcotráfico, um dos desafios da pacificação, foi o tema do primeiro dia de debate do Encontro Estratégico de Segurança Pública e Políticas de Drogas, evento promovido pela Polícia Militar do Rio de Janeiro e o Viva Rio. O encontro reúne, até amanhã, policiais e especialistas em segurança pública de mais de 15 países e dos estados de São Paulo, Ceará, Alagoas e Rio Grande do Sul.

Esses visitantes receberam uma visão geral da política de pacificação com a palestra de abertura, na manhã de ontem, no quartel general da PM, pelo coronel Robson Rodrigues, comandante da Polícia Pacificadora. Robson enfatizou que as UPPs são um projeto em construção e que o objetivo principal não é acabar com o narcotráfico. “Isso seria uma utopia e o que nós queremos é transformar mecanismos violentos, voltados apenas para a repressão, em novos mecanismos de sociabilidade”, afirmou. O coronel ressaltou que a UPP representa um novo marco na política de segurança do estado. “Ela representa um sonho, que é o da polícia retornando à sua vocação originária: privilegiando a prevenção e valendo-se da repressão apenas como algo pontual e bastante qualificada”, explicou ele.

A decisão do comando da Polícia Militar de realizar um amplo debate sobre a política de drogas, tema que divide a sociedade brasileira, foi elogiada por Rubem César Fernandes, diretor-executivo do Viva Rio. Fernandes lembrou ainda que a questão apresenta novos desafios a partir da implantação das UPPs. “Com a pacificação, há uma tendência à separação entre o negócio da droga e controle territorial, a luta armada. A droga continua clandestina, como no mundo todo. Então, como vamos lidar com essa realidade nova, do ponto de vista da segurança?”, questionou.

Os processos que contribuem para a consolidação da pacificação foram apresentados pelo coordenador da UPP Social, José Marcelo Zacchi. Ele enfatizou que é “tarefa de todos os setores mobilizar e articular iniciativas para dar conta de enraizar a paz e para, a partir dela, vislumbrar a integração plena da cidade em termos de cidadania”. Nesse sentido, José Marcelo lembrou que um dos desafios de uma política de drogas é a construção de novas estratégias de atuação. “De um lado, temos como desafio a ampliação das pontes com os profissionais de saúde pública e entre eles e os policiais. Mas, também, precisamos pensar que atitudes para além da repressão o policial pode adotar no dia a dia”.

 As UPPs na prática

Na parte da tarde, os mais de 30 policiais dividiram-se em dois grupos e foram conhecer de perto a experiência das UPPs. Um grupo dirigiu-se ao Chapéu Mangueira e os demais, ao Cantagalo. Nas duas comunidades, foram recebidos pelos comandantes das UPPs locais.

No Cantagalo, os policiais estrangeiros caminharam pela favela, visitaram a sede da polícia pacificadora e do programa Criança Esperança. O Capitão Nogueira, comandante da UPP local, explicou aos visitantes as atividades que a UPP desenvolve na região, como parte da estratégia de policiamento de proximidade: escola de futebol e música, aulas de reforço escolar, de artes marciais, além de reuniões com a juventude. “Muita gente pergunta se é tarefa do policial dar aula de futebol. Eu digo que é uma das tarefas mais importantes, porque com o futebol nós trabalhamos a prevenção e oferecemos às crianças uma nova referência positiva, a do policial, e não mais a do traficante, como era antigamente”, explicou o capitão.

Para o Coronel Rubens Rebuffo, da polícia da cidade de Neuquén, na Argentina, a experiência das UPPs pode se tornar um modelo fora do Brasil. “Seguramente o trabalho de proximidade que conhecemos aqui pode ter bons resultados em outros lugares. No caso da Argentina, seriam necessárias estratégias de  implantação distintas, porque nossa realidade não é a mesma das favelas, mas a base poderia ser a mesma”, afirmou.

O coronel disse ainda que as UPPs representam uma mudança tão significativa para o Brasil que são celebradas também fora daqui. “Eu sou de uma província na Patagônia, longe de Buenos Aires. Lá já chegaram muitas notícias do modelo de pacificação. É bom saber que o Rio de Janeiro está mudando”.

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