FLUPP Pensa leva convidados da Flip ao Cantagalo

12 julho 2012 | Notícias, UPP SOCIAL | Território: Pavão-Pavãozinho / Cantagalo

Cristiane Ramalho mediou a conversa de Teju Cole e Doug Mayhew

A Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) já faz parte do roteiro cultural do Rio de Janeiro e de grandes escritores internacionais. Ontem (11), porém, alguns autores que participaram da edição deste ano se reuniram num cenário diferente: o morro do Cantagalo. A iniciativa partiu dos organizadores da FLUPP Pensa – uma série de debates  que acontece nas comunidades com UPP desde abril e tem como objetivo incentivar a produção literária nas favelas cariocas.

O evento de ontem no Cantagalo mostrou que a literatura, se estiver acessível, pode se tornar popular. O auditório do Espaço Criança Esperança ficou lotado durante as conversas com o indiano Suketu Mehta, o brasileiro Luiz Eduardo Soares, o americano Doug Mayhew e o novaiorquino Teju Cole.

Pertencer ou ser estrangeiro: as fronteiras invisíveis                                                     

Cole – que é filho de nigerianos e escreveu o livro “Cidade Aberta” – falou sobre o sentimento de pertencimento a um lugar ou a um grupo de pessoas. “O meu mundo é composto de diferentes “Nós” que eu tento encaixar. Eu me sinto parte dos eventos literários, como um escritor. É um “nós” verdadeiro. Mas, é meu quinto evento no Brasil e é a primeira apresentação que eu faço para um número considerável de pessoas que se parecem comigo, que tem a cor da minha pele”, disse Cole. Ele conquistou a plateia e o carinho foi mútuo. Antes do debate, jovens fizeram naquele palco uma batalha de MCs, e, por coincidência, sua música preferida tocou ao fundo. “Você está em casa quando as pessoas amam o que você ama também”, exaltou.

Cole está escrevendo um novo livro, sobre a cidade de Lagos, na Nigéria, que, como o Rio, enfrenta situações de pobreza, violência, desafios de infraestrutura e de acesso à educação. Para ele, confrontado com essa realidade, a arte passa a ser uma ferramenta para que as pessoas possam contar suas próprias historias. “Um dos problemas que as pessoas pobres, da favela, da África enfrentam é que as outras pessoas não fazem ideia de como são suas vidas, só conhecem os estereótipos. A BBC e a CNN só falam de desastres e coisas que dão errado na Nigéria. Por isso, como     nigeriano eu quero escrever para que quando as pessoas encontrem meu trabalho elas possam ter uma visão mais complexa. Quero contar uma história com tantas camadas que chegue a ter a textura da vida”, completa.

Para o Americano Doug Mayhew – que se mudou dos EUA para o Rio e lança em novembro o livro “Por dentro das favelas” – a palavra “nós” é usada  inconscientemente para diminuir o sentimento de ser um forasteiro. No Rio há cinco anos, ele ainda tenta compreender a cultura local e é facilmente identificado como “gringo”.

Sua primeira visita a uma favela foi motivada por um episódio triste. Ele era voluntário no Miguel Couto e atendeu uma criança com uma ferida de bala no braço. Não era um machucado recente, mas ela ainda não tinha tido tratamento médico: traficantes impediram que ela fosse ao hospital para punir seus pais. A situação despertou nele o desejo de entender essa realidade. Desde então, ele visitou e fotografou mais de 80 favelas, pacificadas ou não. “Apesar de ter falhas, o processo das UPPs é a melhor coisa que aconteceu. Há menos armas, menos balas perdidas… A próxima etapa, que as pessoas esperam agora, é a chegada de serviços sociais como a educação”, observa.

Grandes cidades, suas dificuldades e soluções humanas

Quando José Luiz, da Cidade de Deus, perguntou a Suketu Mehta – indiano radicado nos EUA e autor do aclamado livro “Bombaim: cidade máxima” – se o filme “Quem quer ser um milionário?” era uma representação fiel das favelas de Mumbai (como Bombaim é chamada atualmente), o indiano devolveu o questionamento: “O filme Cidade de Deus representa sua comunidade?”. Apesar de mostrarem corretamente alguns aspectos, a realidade é mais complexa que suas versões cinematográficas. “A Índia é tão grande que tudo o que você pode dizer é simultaneamente verdade e mentira. Ao mesmo tempo em que é uma das economias que mais cresce, a cidade tem o maior numero de analfabetos entre todos os países”, analisou Mehta.

O escritor Suketu Mehta

O escritor Suketu Mehta

Mumbai é a quarta cidade mais populosa do mundo e o maior centro econômico e comercial da Índia.  Ele visitou, a convite do Instituto Moreira Salles, algumas favelas do Rio, como Rocinha e Complexo do Alemão. “É interessante comparar as favelas de lá e daqui. As de lá são muito piores, mas ambas têm uma vida pública fantástica que os planejadores urbanos não entendem”, disse. Outro aspecto em comum, que ele observa até em Nova York, é que existem áreas pobres que os governos não conseguem alcançar. “É por isso que as pessoas em todo o mundo estão observando a experiência das UPPs. Não precisamos reinventar a roda toda vez. Podemos aprender com as tentativas de outras cidades”, sugere.

Ele leu uma passagem de seu livro que mostra que, até nas condições mais duras, as pessoas ainda são capazes de demonstrar solidariedade. Mehta contou que o sistema de transportes é caótico em Mumbai, os trens são superlotados. Ainda assim, enquanto o trem parte, as pessoas estendem as mãos e puxam por portas e janelas aqueles que chegam e que caso se atrasem correm o risco de perder seus empregos. “É assim que as cidades podem sobreviver”, conclui.

Autor dos livros A Elite da Tropa, Justiça e do recém-lançado Tudo ou nada, Luiz Eduardo Soares, opinou que, como observador da cidade, Mehta combina o distanciamento do estrangeiro, pois cresceu nos EUA, e a familiaridade de um nativo, que conhece a língua e a cultura local. “É difícil, para mim, enxergar o Rio de Janeiro… Ver o Pão de Açúcar sem ser pelas lentes dos cartões-postais”, explica Soares. Soares leu o poema “O terrorista, ele observa”, da polonesa Wisława Szymborska. “A experiência poética é muito democrática. A literatura, a música, as artes plásticas são mais poderosas do que se supõe. Elas são um outro prisma para abordar os problemas da cidade”.

 Na FLUPP, atrações para a família toda

A programação dedicada às crianças teve Ana Maria Machado, presidente da Academia Brasileira de Letras, o comediante Leandro Hassun e outras personalidades lendo clássicos da literatura infantil. Até o Secretário de Segurança, José Mariano Beltrame esteve presente com seu filhinho.